Megainvestidor americano alerta que mercado de ações pode estagnar ou cair com cortes de juros e otimismo exagerado. Não é um cenário favorável para investir.
O ambiente do mercado, que prevê uma recuperação significativa e um crescimento sustentável da economia, sem grandes turbulências, carrega consigo a possibilidade de uma euforia indevida, conforme a perspectiva de Howard Marks, figura de destaque no mundo dos investimentos. Ele marcou presença em uma conferência promovida por uma instituição financeira de renome nesta terça-feira (2), na capital paulista.
Ao debater sobre as perspectivas para o mercado, Marks ressaltou a importância de estar preparado para as oscilações da bolsa e acompanhar de perto o desempenho dos índices para tomar decisões estratégicas no campo dos investimentos. É fundamental manter-se atento às tendências e não deixar-se levar por um otimismo irracional, conforme pontua o especialista em gestão de ativos.
O mercado está otimista, mas cauteloso
O mercado pode estar certo e pode estar errado, mas está altamente positivo. A economia não esquenta tanto a ponto de precisarmos de mais aumentos [de juros] e nem esfria tanto a ponto de entrarmos em recessão. Está tudo perfeito. E é disso que se trata o ‘goldilocks‘, uma história de conto de fadas. Isso pode acontecer.
Mas, se eu estiver certo e será um pouco pior, nesse caso o mercado não faz nada ou cai. Esse não é um cenário favorável para investir. O gestor lembrou que há muitas variáveis e cenários possíveis, mas que o cenário do mercado considera apenas o desfecho mais otimista. ‘Muita coisa pode dar errado.
A inflação pode ser teimosa e eles [o Fed] precisarem de outro aumento [de juros]. Ou fazerem cortes e isso incentivar a economia e a inflação esquentar de novo de modo que um novo aumento [de taxas] seja necessário. Ou o Fed continuar do jeito que está, não começar a cortar logo ou não cortar o suficiente e entrarmos em recessão.
Esse é o problema do goldilocks, nada pode acontecer além da perfeição.’
Mercado financeiro: perspectivas e desafios
Na visão do co-fundador da Oak Tree, ‘o Fed [Federal Reserve, o banco central americano] vai mudar isso [começar a cortar] quando estiverem firmemente convencidos de que a inflação esteja a caminho dos 2% [ao ano]’.
Marks ponderou que ‘muitas pessoas pensaram que isso significava que começariam [a cortar] talvez no próximo mês e que haveria seis cortes este ano’.
Mas ‘o Fed nunca disse seis, eles disseram três, e isso só serve para mostrar que se o Fed disse três, por que alguém diria: o Fed está errado e fará seis cortes e por que você apostaria nisso?’ O gestor acredita que os juros americanos devam estacionar na faixa entre 3% e 3,5% no fim do ciclo e ‘esse será o intervalo normal daqui para frente’.
Conforme o especialista, ‘não é uma taxa alta, é baixa em relação a história’.
‘Quero deixar claro que as taxas de hoje não são altas.
Estão mais altas do que nos últimos 10 anos, mas não são taxas altas [se comparadas à média] no período da minha história com investimentos.’ O gestor lembrou que, há 55 anos, quando começou na indústria de investimentos, ‘acho que a taxa dos ‘Fed funds’ era 9,25% e então [a faixa atual entre 5% e 5,25%] não é alta’.
Em sua opinião, as taxas foram elevadas para acabar com a inflação elevada desde 2021, que foi o resultado dos grandes estímulos concedidos para combater os efeitos da pandemia de covid-19. Para o co-presidente da Oaktree, ‘o ponto mais importante é que não vamos voltar a zero ou 0,5%‘.
Segundo o gestor, no período entre 2009 a 2021, a média das taxas dos Fed funds ficou em torno de 0,5%. ‘Acredito que, obviamente, não era uma postura realista e era muito estimulante‘, avaliou.
‘É claro que não provocou realmente a inflação, que é um dos grandes mistérios de todos os tempos.’
Riscos e desafios para o sistema financeiro
Sobre os riscos ao sistema bancário americano em um momento de taxas elevadas, Marks avaliou que os grandes bancos dos EUA não devem sofrer. Mas há muitas instituições pequenas que estão vulneráveis.
‘A falência do Silicon Valley Bank não foi resultado de empréstimos inadimplentes, mas do fato de que eles tinham um monte de títulos em seu balanço. E quando as taxas subiram, o valor dos títulos caiu e eles se tornaram insolventes. Então, isso é um risco.
Mas penso que o caso de SVB foi incomum, na medida em que não eram muitos os bancos que possuíam tantos títulos.‘
Na avaliação do co-fundador da Oaktree, a questão de um eventual aumento de inadimplência nas hipotecas pode impactar bancos regionais com concentrações mais elevadas desse tipo de crédito.
‘Se eu disser que 100% dos bancos concedem empréstimos para imóveis, isso em si não é um problema. O problema são as altas concentrações e quanto maior o banco, menos os empréstimos imobiliários pesam no seu balanço. Nos principais bancos, são apenas 5% em média.
Mas quando você desce para instituições [com patrimônio] abaixo de US$ 250 bilhões, os bancos menores podem ter uma participação de 20% a 30% [de empréstimos imobiliários no balanço]’. ‘Obviamente temos que nos preocupar com os bancos comunitários e regionais. Mas os EUA têm 4.800 bancos, enquanto o Canadá tem uns 15 bancos. Por que precisamos de 4,8 mil bancos?
Você pode realmente regular 4,8 mil bancos? Então ter um grande número de bancos pequenos, talvez, isole o problema e evite que afete os maiores. Os grandes bancos não vão ter um problema.’ Conteúdo publicado originalmente no Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor Econômico
Fonte: @ Valor Invest Globo
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